Ao abrir um escritório no Rio de Janeiro (RJ) em junho do ano passado, a estatal russa de energia nuclear Rosatom não imaginava a
dimensão da crise política e econômica brasileira apenas um ano depois.
Durante o maior fórum internacional de energia nuclear em Moscou, o
Atomexpo 2016, na primeira semana de junho, o vice-presidente da Rosatom
na América Latina, Ivan Dybov, admitiu que grandes negócios no Brasil
terão de esperar, até que o cenário político se estabilize, mas
comemorou avanços nas áreas de radioisótopos, agricultura, entre outras.
“Com
a Lava Jato, os negócios diminuíram o ritmo. Talvez haja algum
adiamento em futuras parcerias para usinas nucleares, mas temos outras
possibilidades de negócios no Brasil e em diferentes países também
interessantes e lucrativos. Somos os maiores fornecedores de
radioisótopos no Brasil, temos um grande projeto na Bolívia, estamos
discutindo vários projetos de radiotecnologia na região”, disse Dybov.
“Há também a possibilidade de prover insumos para a agricultura,
esterilização para ferramentas médicas e equipamentos médicos para toda a
América Latina, que é um parceiro estratégico”, previu. Ele mencionou ainda a possibilidade de construir um depósito de lixo
radioativo para a Eletronuclear, que opera as Usinas Angra I e II, em
Angra dos Reis, costa verde fluminense.
O vice-diretor geral da estatal Rosatom, Kirill Komarov também se mostrou otimista em relação às parcerias comerciais com o Brasil. O
Brasil também tem motivos para comemorar. De acordo com o diretor de
produção do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), Jair
Mengatti, o fornecimento de produtos radioisótopos da Rússia para o
Brasil permitiu que o governo brasileiro reduzisse pela metade os gastos
com insumos que ajudam a diagnosticar e tratar vários tipos de câncer.
O
Ipen é o principal produtor de radiofármacos no país e enfrentou problemas no ano passado para conseguir alguns insumos, como o Iodo-131, agora 100% importado da Rússia. “Até o fim do ano passado, nosso fornecedor era do Canadá e depois do
processo de licitação passamos a receber da Rússia. Economizamos por
semana em torno de US$100 mil. São mais de R$10 milhões por ano de
economia”, disse o diretor do Ipen.
Mengatti, que também é
gerente do Centro de Radiofármacos do instituto, visitou com outros
técnicos as instalações da parceira russa. “A capacidade de produção
deles é impressionante, uma quantidade enorme de reatores. Alguns
insumos podem ser irradiados lá e poderemos processá-los aqui. Já temos
uma lista de novos insumos e como temos acordo bilateral, podemos
estabelecer parcerias estratégicas, sem licitação, desde que nos seja
interessante do ponto de vista econômico”, explicou. Dentre os itens da
lista, estão gálio 67 e cloreto de tálio, ambos usados para
diagnósticos.
Um dos
convidados do AtomExpo 2016, o presidente da Nuclebrás Equipamentos
Pesados (Nuclep), Jaime Cardoso, informou que os negócios com a Rússia
podem ajudar a empresa, que chegou a ter cerca de 20 mil empregos
diretos e indiretos e agora tem 1 mil, a aumentar a produção. Segundo
ele, a empresa, é de economia mista e vinculada ao Ministério da
Ciência, Tecnologia e Inovação e subordinada à Comissão Nacional de
Energia Nuclear (CNEN), foi prejudicada pela crise econômica e pela
Petrobras, sua principal cliente.
“Estamos ampliando a discussão
do memorando que foi assinado, inclusive pelo presidente Temer [na
época, vice-presidente] e o primeiro ministro russo [Dmitry Medvedev] no
ano passado. Tornamo-nos fornecedores internacionais de equipamentos
nucleares para a Rosatom. Agora estamos estudando outras formas de
cooperação como joint ventures para que esse fornecimento se torne mais
efetivo especialmente para o mercado latino-americano”, disse ele, ao
adiantar que memorando similar foi assinado com a americana Westinghouse
e outro está sendo negociado com a francesa Areva.
Cardoso
informou que o processo de impeachment gerou insegurança entre os
parceiros e que a viagem serviu para assegurar a continuidade dos
compromissos apesar da mudança repentina de governo. “Um dos motivos de
estarmos aqui é garantir a tranquilidade dos parceiros, que os acordos
firmados serão cumpridos. Estivemos antes na França para garantir que
podemos continuar os entendimentos, que não haverá ruptura na
administração da empresa”, declarou.
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