O setor de transporte marítimo de contêineres tem navegado em meio a sinais conflitantes para seus principais participantes nos últimos dois meses: enquanto os grandes importadores dos EUA se preparam para negociar contratos de longo prazo mais favoráveis, as companhias de navegação enfrentam um cenário marcado por excesso de oferta de capacidade e distorções crescentes decorrentes de disputas comerciais. De acordo com dados da Xeneta, as taxas spot para transporte marítimo de contêineres da China, Japão e Coreia do Sul para a Costa Oeste dos EUA (USWC) caíram por várias semanas, chegando recentemente a ficar abaixo das taxas estabelecidas em contratos de longo prazo.
Essa queda se deve principalmente ao fato de que “a oferta de espaço em navios porta-contêineres excede a demanda, à medida que as companhias de navegação recebem novas embarcações adquiridas com os lucros dos anos da pandemia”. Nesse contexto, os importadores estariam buscando renegociar taxas entre 10% e 15% menores do que as vigentes no ano passado, embora encontrem resistência por parte das companhias de navegação, que agora operam com margens apertadas.
“Os proprietários da carga têm a vantagem”, afirmou Peter Sand, analista-chefe da Xeneta. No entanto, ele alertou que “as companhias de navegação estão chegando à mesa de negociações com orçamentos austeros, mas não fracos, então certamente oferecerão resistência”. Perspectivas da Demanda No Porto de Los Angeles, um dos principais centros de importação dos EUA provenientes da Ásia, o CEO Gene Seroka previu que os volumes de carga durante os primeiros meses deste ano serão menores do que os registrados no mesmo período de 2025. Contudo, essa aparente contração é parcialmente explicada por uma base de comparação excepcionalmente alta, após o aumento das importações no ano passado devido à ameaça de novas tarifas. De fato, a Federação Nacional de Varejo (NRF) projeta que os volumes de importação durante o primeiro semestre do ano cairão cerca de 2% em relação ao ano anterior, embora outros participantes do mercado esperem que a demanda permaneça praticamente inalterada.
Esse comportamento é surpreendente, considerando que setores tradicionalmente ligados ao consumo de bens importados, como o imobiliário, estão mostrando sinais de fragilidade. O Problema da Evasão Tarifária Além da incerteza do mercado, há um desafio crescente relacionado à conformidade regulatória. Diversos atores da cadeia logística alertaram para um aumento significativo nas práticas de evasão tarifária nos fluxos comerciais entre a Ásia e os Estados Unidos. De acordo com dados comerciais recentes, existe uma diferença recorde de US$ 112 bilhões entre as exportações que a China declarou ao mercado americano e o que foi efetivamente registrado pelas autoridades alfandegárias dos EUA.
Na prática, segundo a Bloomberg, “até um quarto do que a maior economia da Ásia exportou para os EUA no ano passado pode ter escapado das tarifas”. Esse fenômeno, impulsionado por estratégias logísticas agressivas e pelo aumento das taxas de importação, está dando origem a uma economia paralela focada em contornar as barreiras comerciais. De acordo com especialistas do setor de logística e autoridades comerciais, essas práticas frequentemente se materializam por meio de esquemas que envolvem a subdeclaração do valor das mercadorias, a classificação incorreta de produtos ou o uso de intermediários que redistribuem as remessas para alterar seu país de origem antes de entrarem nos Estados Unidos.
Algumas ofertas chegam a prometer o envio de cargas da China com tarifas que incluem impostos sobre um valor fixo por quilograma, embora as tarifas sejam calculadas sobre o valor declarado das mercadorias. Isso levou especialistas do setor a alertarem que tais propostas são um claro sinal de potencial fraude. "Não se pode ter uma tarifa total por quilo", explicou Ryan Petersen, CEO da plataforma digital Flexport. "É obviamente fraude. Eles são bastante descarados quanto a isso", observou. As consequências para a concorrência são significativas. "A fraude tarifária é muito pior para nós do que as próprias tarifas", disse Michael Kersey, presidente da American Lawn Mower Company. "As tarifas são apenas o custo de se fazer negócios, mas aqueles que as burlam são os que causam danos muito, muito significativos."

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